Páginas

Pesquisar este blog

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

PERSEGUINDO A VINGAÇA - 2ª PARTE



                 No dia anterior, Zé Chico havia sido interpelado por dois homens, lá no boteco do Julinho, na pequena Vila do Sapecado quando tomava um gole de pinga encostado no balcão. O estabelecimento construído em madeira serrada atendia a todos os seringueiros e moradores daquela região, vendendo-lhes aguardente e alguns gêneros de primeira necessidade.
                   Zé Chico encontrava-se de pé em frente do balcão, quando os dois homens, foram ao seu encontro.
                   _ O Senhor que é o “Zé Chico”, dono daquela posse Arinos abaixo.
                   _ So eu mesmo sim senhô. - Respondeu Zé Chico, aos estranhos que o interpelavam.
                   Neste momento seu filho Tião, que estava sentado na mesa ao lado aproximou do seu pai e dois homens que a ele se dirigiam, observando-os com atenção, já que era a primeira vez que estava vendo aqueles estranhos forasteiros.
                   Tião então notou, que um dos homens, o mais alto, tinha pendurado sobre o peito um cordão feito de uma tira preta, onde havia pendurado um crucifixo de madeira junto com uma figa de igual material. O homem tinha sobre sua cabeça um chapéu de abas largas preto, vestia camisa verde de manga comprida, por dentro das calças de brim preto, onde se notava um cinto de boiadeiro, com uma grande fivela em forma de ferradura. Seu rosto esquálido tinha um enorme bigode, amarelado talvez pela fumaça do cigarro, já que este trazia um no canto da boca. Chamava-se Sebastião, também conhecido como “Tião Bigode”. O mais baixo, pouco franzino tinha na cabeça um boné escrito com propaganda de loja de material de construção de cor vermelha, vestia uma camiseta branca e uma calça jeans preta, e chamava-se Edinho, também conhecido por “Edi Bala” trazia estampado no rosto um falso sorriso e um fino bigode sobre a boca. Tião veio a saber depois, que ambos os homens, eram perigosos  pistoleiros.
                   _ Mais por que me pergunta. Falou Zé Chico aos homens, ali presentes com seu jeito simples de caboclo.
                   _ Pois é Seu Zé, aquelas terras dali, onde o senhor tem a sua posse, pertence ao nosso patrão o Sr. Durval José Pereira, grande fazendeiro de São Paulo, que a pouco mudou para esta região, e pretende derrubar uma grande área para formação de pastagens. Disse  “Tião Bigode” a Zé Chico, que entornava o copo de cachaça, goela abaixo.
                   _ Acho que deve have um engano, pois já faz mais de deis anos que corto seringa por aquelas bandas, e nunca ouvi falar que lá tivesse dono. Respondeu Zé Chico aos forasteiros.
                   _ Inda tem mais, só que moro naquele barraco já faiz mais de cinco ano. Acrescentou Zé Chico em sua fala.
                   Tião Bigode, aproximou-se do Zé Chico, e com a voz mansa e suave, falando baixo para não ser ouvido por outros presentes no recinto disse.
                   _Seu Chico, nestas horas é preciso ter juízo. O Senhor Durval, tem muito dinheiro. Tem a Polícia e os Juízes em suas mãos. Acho bom o Senhor deixá aquelas terras, a fim de evitar problemas.
                   Zé Chico, entornando outro copo de cachaça já embriagado pelo excesso de álcool não deu muita atenção aos seus interlocutores.                     Tião seu filho caçula,  olhava fixamente aos dois homens que conversavam com o seu pai, tentando ouvir a prosa no meio do burburinho do boteco.
                   Quando os homens deixaram o recinto, Tião foi até o balcão e perguntou para o Julinho.
                   _ Seo Julinho, quem são esses homes ?
                   _ Prá trabalhá pro Durvar, boa coisa não são!!. Respondeu Julinho, em voz baixa e olhando dos lados.
                   _ Estes dois na certa são guachebas do Durvar, estão aqui pra québra de mio. - Dissera Julinho, em seus termos acaboclado, que os indivíduos eram pistoleiros de aluguel, e que estariam na região, para cumprir algum contrato de morte. Ouvindo isto, Tião foi até a Porta do estabelecimento, vendo os dois indivíduos a subirem em uma camionete e saírem do vilarejo. 
                   O dia já dava sinal de sua graça, trazendo consigo a algazarra frenética dos passarinhos. Os Papagaios sobrevoando os pés de Buritis, fazendo grande barulho. As Araras, voavam de um lado de outro, sempre aos bandos ou em casal. Tião abriu os olhos, e sentiu o cheiro doce do café recém-coado, que vinha lá da cozinha onde já estava sua mãe. Zé Chico amolava as facas de cortar seringa, sentado em um cepo próximo a casa. O jovem espreguiçou em sua tarimba, e em seguida colocou-se de pé, dirigindo-se quarto a fora.
                   _Bença mãe!!! Bença pai!!! Disse o menino dirigindo-se aos seus pais.
                   _ Bom dia fio Deus te abençoe!!! - Respondeu sua mãe.
                   _ Passa uma água na cara e enxágua a boca, e vem tomá o café. - Completou Maria, dirigindo-se ao primogênito.
                   _Teu pai já tá te esperando prá ôces ir cortá seringa. Tó terminando de prepará o armoço prá ôceis levá. - Disse Maria ao filho, que preguiçosamente dirigia-se a bacia com água existente na tarimba fora do barraco.
                   Futrica a cadela, vendo o menino havia acordado, veio ao seu encontro pulando em suas pernas.
                   _ Saí futrica, se não ôce me derruba. Disse o menino diante da festa que a cachorra lhe fazia.
                   Tião ao ter se lavado, engoliu o café preto, após ter comido uns pedaços de torresmos que sua mãe havia retirado na lata de banha, e lhe trazido com um pouco de farinha de mandioca. Calçou sua botina e respondeu ao pai que lhe apressava no quintal.
                   _ Anda moleque, pega a matula que sua mãe preparou e vamos. Gritou Zé Chico para o filho.
                   _ Já tô indo pai !. E assim pai e filho, foram em direção à mata para efetuar o corte das seringueiras, extraindo o precioso látex que lhe trariam o sustento.
                   Maria colocou o feijão para cozinhar, e foi até o mandiocal próximo a casa, e lá chegando, arrancou um ou dois pés,  sendo  parte para tratar da criação e  o resto para cozinhar para o almoço. Ao fazer isto, Maria se indagava da importância da raiz para o sertanejo. Depois dirigiu-se a tábua de lavar roupa, que encontrava-se pregada em um toco de itaúba próximo ao poço. Ao lado da tábua usada como lavanderia, havia um tambor de duzentos litros cortado ao meio, onde Maria costumava armazenar a água que retirava do poço, através de uma corda enrolada no sarilho.
                   Lá no meio da mata, pai e filho iam de árvore em árvore, fazendo o corte e fixando os coletores de látex, recolhendo os que já se encontravam cheio. Nestas idas e vindas, os dois trilhavam caminhando entre enormes árvores centenárias, sendo que dali mal dava para ver o céu, de tão frondosas e cerradas. Os odores que vinha da mata úmida, tornava o caminhar ainda mais saudável. O ar estava impregnado do cheiro do mato, de flores silvestres de terra molhada. Ah !!..que delícia de vida. Sofrida, porém inegavelmente saudável.
                   Os seringueiros, pai e filho, andando meio as grandes árvores, às vezes transpondo pequenos rios, oriundos das diversas nascentes existentes entre a selva. Esta riqueza natural, que serpenteia entre as árvores, frequentemente era utilizado por Zé Chico e seu filho,  matando a sede e amenizando o calor.
                   Tião, ao caminhar atrás do seu pai, ia observando os pés de Buritis próximos aos córregos ou os Tucumans, que estivessem com frutos maduros, pois sabia que ali, estaria uma ceva natural dos animais silvestres, especialmente as Pacas, cuja carne e demais apreciada pelos sertanejos. De vez em quando, ao encontrar um pé de Tucuman, aproximava-se com cuidado, para não ferir-se em seus espinhos para observar se os frutos caídos e depositados em seus pés, estavam sendo comidos pelas Pacas. Ele sabia que os Bichos estavam visitando a ceva, quando encontrava os cocos roídos. Quando isto ocorrida imediatamente gritava para seu pai.
                   _ Ei pai, as Pacas tão batendo neste Tucun!!! Veja quanto coco comido!!!
                   Zé Chico, para não desanimar o menino, respondia.
                   _ Vai marcando, que uma noite dessas, quando não tiver lua, nóis vamo esperá as baita.
                   E assim ia transcorrendo o dia, até das 10:30 horas, já com a barriga roncando pela fome, sentaram sob uma vasta árvore, com grandes catanas, para saborearem o almoço.
                   _ Vamo pará prá armoça aqui meu fio, bem embaixo deste guatazeiro. Disse Zé Chico ao menino de olhos famintos que o acompanhava.
                   _ Êta pai, já tava na hora. Minha barriga, não parava de roncá. Até parece uma pintada !.. - Dissera Tião ao seu pai, que o respondeu com uma boa risada.
                   _ Dexa de prosa e vamo no que interessa. - Disse-lhe o pai, alcançando um pequeno caldeirão enrolado em pano, dentro de uma matula, entregando ao menino.
                   _ Taí! pegue o seu boião. - Completou o homem para seu filho.
                   Ambos sentaram próximo ao tronco da frondosa árvore, e iniciaram o almoço. Em cada caldeirão, havia feijão, arroz, torresmo e carne de porco, além da indispensável Farinha de Mandioca. Da comida que haviam trazido sempre sobrava alguma coisa, para mais tarde, antes do retorno para a pequena casa.
                   Uma vez e outra, Tião disfarçadamente, longe do olhar de se pai, atirava umas colheradas para a cachorra Futrica, que sempre os acompanhavam mata adentro, e que naquele momento ficava ali por perto esperando os costumeiros restos.
                   E assim ia passado à tarde até a hora de retornar ao lar, onde Maria os aguardava.

Continua..................

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por sua participação. Seu comentário está aguardando moderação para depois ser publicado.